No início, eu sabia que seria a única mulher naquele meio de fumaça e ferrugem.
Passei quase dois anos observando esses trabalhadores. Imagine a minha surpresa quando, em plena segunda-feira, um dos funcionários se aproximou e disse: “Você não sabe, tem uma mulher soldadora”. O tom dele era de deboche e de total estranhamento. Uma mulher? Alguns funcionários acharam aquilo uma afronta.
Quando cheguei ao fundo da empresa, eu a vi. Crenilda. Era faxineira antes de ser soldadora. Queria mais. Trabalhava em uma empresa de metalurgia e pediu para aprender. Seu chefe, na época, aceitou ensiná-la. Desde então, ela deixou o setor da limpeza para ocupar o setor que molda o ferro.
Mesmo diante dos olhares tortos e dos comentários depreciativos, quase sempre disfarçados de piada, ela continuou. Aprendeu a operar a serra, o maçarico. Não era a mais rápida dali, mas era a mais caprichosa. A solda era precisa, o corte assertivo.
Ela uniu brutalidade e cuidado.
Alguns, ali dentro, passaram a aceitá-la e se dispuseram a ensiná-la. Um deles era Jacó, homem de gestos simples e coração largo. Foi ele quem a guiou e a ensinou.
Crenilda deixou a faxina porque precisava de mais dinheiro. Tinha três sobrinhos em uma casa de acolhimento e estava na Justiça tentando trazê-los para morar com ela. A irmã, mãe das crianças, enfrentava problemas com substâncias e não conseguia criá-las.
Ela engoliu piadas, aprendeu o que era necessário e seguiu trabalhando. Depois de alguns meses, o juiz autorizou que uma das crianças ficasse sob sua guarda.
Dentro da empresa, porém, a situação se tornou insustentável. A convivência com alguns colegas deteriorou. Crenilda acabou deixando o trabalho.
Hoje, atua como soldadora em outra empresa, onde a presença de mulheres é mais aceita. Segue na luta.